Cortar os supérfluos

Quando, pela primeira vez na vida, parei pra pensar em que objeto faria a minha vida melhor, cheguei à surpreendente conclusão de que nem um super computador com monitor curvo de 90 polegadas, nem um iate com heliporto. E, em algum ponto, o pensamento deixou de ser sobre realização pessoal e virou um devaneio sobre extravagâncias.

Outras coisas, por outro lado, fazem parte da rotina. São repetidas todos os dias. E portanto, se forem melhores, logicamente vão melhorar os dias… todos os dias! Coisas simples, como beber um bom café, por exemplo. Aproveitar as refeições com a família. Comer bem. Mas nada disso envolve uma soma de dinheiro capaz de levar alguém à falência… ou envolve?

Não se você comprar um bom café em grãos e moer pela manhã. Se tomar numa cafeteria gourmet da moda, um único café duplo pode chegar tranquilamente a um terço de quilo de um bom café em grãos. Não estou nem falando dos pós de café com sabor “tradicional” (super torrados pra esconder os defeitos). Imagine frequentar bons restaurantes diariamente.

Então, já sabia o que era fundamental pra mim. Esse era o primeiro passo. Mas e o que não era? Essa lista foi bem mais fácil de fazer. Era o segundo passo.

O primeiro item da lista foi o carro.

O carro não é um ativo. É um passivo. Isso quer dizer que ele só dá despesas, não rende nada. Essa é a definição econômica. Um imóvel rende aluguel, logo é um ativo. Capital rende juros, logo é um ativo.

Além disso, o carro é passivo-agressivo (brincadeira, inventei isso!), porque tantas despesas certas e contínuas acabam fazendo muita diferença no orçamento. Combustível, estacionamento, manutenção, vistoria, seguro, documentação, é um bocado de dinheiro com hora certa pra ir embora.

Continuei cortando coisas, e em pouco tempo, começou a aparecer uma sobra! E comecei a estudar maneiras de investir essa diferença. Como a diferença era mensal, todo mês crescia um pouco mais, e com o mesmo salário de sempre.

Em algum momento, passei a ganhar um salário melhor. Mas como eu já tinha decidido que comprar nada faria minha vida mais plena, continuei vivendo como vivia, e a diferença mensal passou a crescer mais rapidamente.

É tão simples que é chocante. E mudou minha vida. Ao começar a estudar mais sobre educação financeira e chegar à conclusão de que qualidade de vida e nível de consumo são coisas diferentes, me voltei pra prazeres simples, e tive o efeito colateral de ter dinheiro sobrando de forma regular pela primeira vez na vida.

Faço aqui uma confissão: antes disso, toda vez que recebia algum dinheiro, pensava imediatamente como poderia gastá-lo! 10 dinheiros? Tal coisa. Três mil? Tal outra coisa. Vai ver era por isso que não tinha jeito do dinheiro sobrar. Arrumar um destino pro dinheiro sempre foi mais fácil que ter o dinheiro na mão.

Cortar a TV foi muito mais fácil. Na época em que fiz a lista, morava na China, e a programação local era realmente ruim. Além de ser em chinês, claro.

Aí entra a milenar sabedoria da TV chinesa: Não apenas existem hábitos que tiram dinheiro, aptidão física e tempo, tudo de uma vez, enquanto outros te dão os três. Não estou falando de exemplos óbvios, como fumar. Os que não são óbvios é que são os mais eficientes – pro bem ou pro mal.

E ainda me mostrou que a maneira de conseguir um é a mesma de conseguir os três: dinheiro, aptidão física e tempo. A seguir!

Enquanto isso, o que entra na sua lista de supérfluos, de coisas que você poderia abrir mão sem medo de ser infeliz?

8 Comentários

  1. Gutex
    ·

    Pode parecer muito mão de vaca, mas acho extremamente supérfulo:
    –> Pipoca de cinema;
    –> Biscoitos recheados;
    –> Carro do ano;
    –> Reforma na casa a cada lançamento novo de design;
    –> Pacote 3G ultrapoweradvanced (sendo que só consigo mexer no cel após as 18h e as 19h estou em casa).

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    1. ZNP
      ·

      Concordo 100%, Gutex!

      Dizem aqui que houve um roubo milionário no cinema dia desses. Coisa de 3 milhões de reais! Levaram 2 refrigerantes grandes e 5 pipocas. 😀

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        1. ZNP
          ·

          Quem já foi a “grandes cinemas de shoppings” sabe do que estou falando! 😀

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    2. razmth
      ·

      Também concordo. Especialmente biscoito recheado e comes e bebes no cinema. Um biscoito às vezes passa, mas se você para pra pensar que ele custa de 1,50 a 4 reais (em média) e é uma “refeição” pra 1 pessoa adulta sozinha. Já aquele pão integral (que não usa farinha enriquecida com ácido fólico como ingrediente principal) com grãos e verdadeiramente saudável, que custa a “bagatela” de 8 reais, rende várias refeições saudáveis e que sustentam o corpo. Qual deles será realmente caro? Qual deles o dinheiro foi bem gasto e rende de verdade? Se você lembrar do preço de um salgado e um refresco na rua, a decisão deve ficar mais fácil.

      Sobre o cinema, se vai fugir da dieta, encare um milk shake ou um Doritos no supermercado do shopping. Ou um combo de Whopper duplo. Eu particularmente acho melhor do que o combo pipoca+refri.

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      1. ZNP
        ·

        Pois é! Eu acostumei a não comer no cinema. Afinal, a gente nem presta atenção no que come mesmo! E quando bate aquela vontade de comer uma “gordice”, escolho logo a melhor de todas. O hambúrguer mais gostoso, o melhor petisco de todos. Assim, não bate o arrependimento de ter furado a rotina saudável e ainda por cima não ter sido bom! Isso mata duas vezes!

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        1. razmth
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          Essa é a ideia, Z! Se vai “engordar” (em parênteses porque um dia não vai te fazer ganhar 5 kg), engorde direito. Aproveite o prazer do deslize. É como tomar refrigerante sem gás. O trem só faz mal, puro açúcar e vai tomar quente ou sem gás? Aí não dá!

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          1. ZNP
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            De acordo!

            Mas ontem li um artigo muito bom de um treinador gringo: um deslize (a treat) é alguma coisa que acontece menos de uma vez por mês. Se acontece com maior frequência, faz parte da rotina! – segundo ele, né! 😀

            Agora, se quiser ir mais nesse assunto, leia os comentários! São muito ricos em experiências diferentes!

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