A doce procrastinação

Porque compramos verduras e frutas pra deixá-las de lado? Porque entre uma fruta e um pão, normalmente escolhemos o segundo?

As pessoas dizem que querem ver mais documentários e filmes autorais, mas os filmes mais alugados continuam sendo os sucessos de bilheteria. (Daniel Read, George Loewenstein et Shoban Kalyanaraman, 1999)

Link para outro estudo aqui.

Os psicólogos usam o termo “desvio do presente” pra definir as diferenças entre o que achamos bom no curto prazo e o que achamos bom no longo prazo.

Isso ajudaria a explicar a procrastinação: adiar tudo pro último minuto. Compras de Natal, recadastramento do título eleitoral, jogar video game ao invés de estudar. E também explica porque fazemos isso tudo apesar das boas resoluções em contrário.

Nos anos 60, Walter Mischel realizou experiências sobre conflito de negociação com crianças. Acho que a maioria aqui deve ter visto aquele vídeo com as crianças numa sala e um marshmallow.

Um pesquisador entra e coloca na frente duma criança um marshmallow. Diz que, quando voltar, se a criança não tiver comido o doce, vai ganhar outro.

Quando começou a analisar os resultados, viu que as crianças que comiam o doce mais rapidamente eram as mais suscetíveis a problemas comportamentais, e tinham notas mais baixas que os outros.

Uma explicação mais aprofundada pode ser vista nesse artigo.

Uns 30% dos moleques esperaram o pesquisador, que voltava entre 10 a 15 minutos depois. Ainda que tentados pelo doce, conseguiam resistir.

Walter Mischel percebeu uma relação entre o desempenho escolar e a capacidade da garotada de se controlar.

Em 1981, reencontrou 653 dos que haviam participado da primeira experiência, e fez novas pesquisas. Os que haviam cedido mais rapidamente eram realmente mais suscetíveis a problemas de comportamento que os outros.

Para esse pesquisador, a inteligência tem grande parte no autocontrole. E depende de uma competência fundamental chamada de “divisão estratégica da atenção”. Ou seja, ao invés de ficarem obcecadas pelo marshmallow que estava na frente deles (estímulo quente), as crianças foram brincar e cantar músicas pra esperar. O desejo não foi vencido, foi simplesmente esquecido. A chave é evitar pensar no doce.

Entre os adultos, essa competência é conhecida por “metacognição”. Refletir sobre uma reflexão. As crianças que entendiam isso podiam esperar melhor a gratificação. Os que achavam que a melhor maneira era encarar fixamente o doce, acabavam não resistindo.

Segundo Mischel, o teste do marshmallow é um excelente teste de previsão. Os que são mais sensíveis às emoções quentes devem poupar mais dinheiro pra aposentadoria que os outros.

Trabalhos posteriores viram diferenças comportamentais em crianças de 19 meses. Quando sob situações de estresse, umas crianças começavam a chorar, enquanto outras contornavam sua ansiedade se distraindo, brincando. As que choravam eram as que, 5 anos depois, teriam dificuldades em resistir ao marshmallow.

De acordo com Mischel, a capacidade de auto controle é tão genética quanto social. O auto controle de crianças vindas de famílias de pouca receita do Bronx é menor que os de crianças de Palo Alto. “Quando você cresce pobre, acaba não tendo o hábito de adiar sua recompensa. E se não praticar, não saberá como distrair sua atenção, elaborar as melhores estratégias…” As pessoas aprendem a usar sua personalidade como aprendem a usar o computador: por tentativa e erro.

Mas isso se aprende. Ao dizer para as crianças imaginarem um quadro em torno dos doces, os resultados foram espetaculares. “A única maneira de vencer nossos instintos é evitá-los, prestar atenção em outra coisa. Costumamos dizer que isso é vontade, mas não tem nada a ver com vontade”, explica John Jonides, neurocientista da Universidade de Michigan.

Mischel prepara agora um estudo em grande escala, com centenas de estudantes do primário, pra ver se as competências de autocontrole podem ser treinadas para permanecerem no longo prazo. Em outras palavras, ele quer mostrar às crianças que essas coisas não funcionam só durante a experiência, mas que elas também podem aplicar isso em casa, na hora de decidir entre os deveres e a televisão.

Para Angela Lee Duckworth, professora de psicologia da Universidade da Pensilvânia, tentar ensinar álgebra a um adolescente que não tem autocontrole é um exercício inútil.

Segundo ela, a capacidade de adiar a auto gratificação seria um fator mais eficaz na previsão do comportamento que o QI! Se a inteligência é importante, é menos que o autocontrole. Walter Mischel diz que não basta ensinar às crianças uns truques. O desafio é transformá-los em hábitos, o que pode demandar anos de prática. “É aí que os pais são importantes” – ele diz. “Eles criam rituais pra ensinar a adiar suas vontades rotineiramente? Encorajam a conseguir? Encontram maneiras de fazer a espera valer a pena?”

Para Mischel, as rotinas mais comuns na infância (como não comer porcaria antes das refeições, esperar a manhã de Natal pra abrir os presentes, etc) são exercícios de treinamento cognitivo disfarçados, que nos ensinam a adiar nossos desejos.

Tudo isso mostra que a procrastinação é só um lado de uma tendência destrutiva que começa na auto indulgência. Comer coisas gostosas ao invés das saudáveis, gastar ao invés de poupar, jogar video game ao invés de estudar.

E você, conseguiria ganhar o segundo marshmallow?

Nos próximos posts vamos examinar um pouco mais a origem dessa tendência, e como fazer pra estar na minoria que ganha mais doces!

Enquanto isso, veja como são feitos esses experimentos:

4 Comentários

  1. The Kramer
    ·

    Esse texto é excelente e de fato o que ele fala acontece na prática. Mas eis uma duvida que me incomoda bastante…Por quanto tempo esse estímulo quente continua em nossas mentes? Essa estratégia de fugir do problema é espetacular, porém, em algum momento não teremos como fugir, explico; O Estímulo se de as 20 horas, e para fugir dele resolvemos assistir ao Jornal Nacional e a Novela, ao terminar a novela ainda estamos estimulados e não podemos continuar a assistir tv porque precisamos dormir para acordar cedo no outro dia, ai pergunto, o que fazer? Se forte e resistir ao estímulo(nesse caso alimentar) e como consequência levar algumas horas para dormir? Ceder ao estímulo e comer e assim dormir como um anjo? A Primeira alternativa torna-se mais fácil com o tempo? Há uma terceira alternativa? E quando o estímulo quente for algo que mais diretamente afete a concentração? Estou louco para jogar video game, mas preciso estudar. Ok, vou me forçar a estudar, mas ai vem a grande questão, como irei conseguir me concentrar? Por mais que eu fique sentado duas horas ali, a mente estará viajando, como agir nesses casos?

    Responder
    1. ZNP
      ·

      Repare que centenas das crianças participantes do estudo foram reencontradas anos mais tarde, e as que tinham conseguido mudar seu foco pra evitar o estímulo foram bem sucedidas. As que comeram o doce rapidamente normalmente tiveram problemas com auto recompensa. Isso quer dizer que manter-se na rotina, nos bons hábitos, é uma ação constante. Nenhuma das crianças do estudo virou super-herói, nem atingiu a iluminação. Estão todas na luta, todos os dias. E nós também!

      Abração, Kramer! (tava sumido, hein?!) 😉

      Responder

  2. ·

    Mais um espetacular texto, ZNP!

    Estou com uma série de projetos em minha vida, mantendo conquista o crescimento pessoal, e um desses projetos já obtive relativo sucesso, a briga com a balança.

    Cheguei a pesar 135kg e estava desesperado achando que não tinha mais volta, que eu só iria engordar mais e mais até só poder resolver minha situação por vias cirúrgicas. Então em uma ”última” tentativa de emagrecer e mudar de vida, assisti a uma entrevista da última pessoa no mundo que eu pensei que pudesse me ajudar, Casagrande!

    Ele me abriu os olhos para algo que se provou de fato verdade e ter a percepção dessa verdade foi determinante para o meu sucesso. A Entrevista foi no Bola da Vez da ESPN, segue link https://www.youtube.com/watch?v=fXe51ZYDiY8, e nela, resumidamente, ele fala que não é um ex-viciado, mas sim um viciado e assim o será enquanto viver, tendo ciência disso, ele passa a evitar hábitos e comportamentos que o remeta aos tempos de drogas e que acenda nele a vontade de se drogar novamente; ”Eu fujo, não tento bater de frente porque sei que sou mais fraco e vou perder”. Vale a pena acompanhar essa entrevista, é uma lição de vida e humildade.

    Isso tudo coaduna com o que o ZNP falou aqui; ”As pessoas aprendem a usar sua personalidade como aprendem a usar o computador: por tentativa e erro.” Isso é uma grande verdade, e felizes os que podem ouvir histórias e experiências de vida de pessoas mais experientes e com boa vontade em ajudar o próximo e sabem tirar bom proveito disso tudo, é uma forma ganhar acertos com os erros dos outros.

    Parabéns pela excelente postagem, ZNP!

    Responder
    1. ZNP
      ·

      Olá Arthur! Chegar a 135kg e mudar seus hábitos e emagrecer é uma prova de que tem muito pouca coisa que você não consegue fazer, né? Parabéns, amigo!

      E muito obrigado pelo comentário!

      Responder

Deixe sua opinião