Vinhos para iniciantes inteligentes

Então você quer impressionar alguém com um jantar romântico e um vinho. E se você comprar uma garrafa cara, e sua companhia nem se importar? Não se surpreenda. A maioria não se importa mesmo!

Tire o rótulo, peça opiniões à companhia, e acrescente ao seu jantar uma degustação divertida, barata e possivelmente reveladora.

A percepção de qualidade dum vinho não é só sabor, cor e aroma. Isso você aprende a diferenciar com litragem bebida. E o resto?

A influência do preço

No livro The Wine Trials, o escritor e crítico de comida e vinhos Robin Goldstein montou 17 degustações às cegas (onde o participante não sabe qual o vinho servido) com mais de 500 pessoas (que iam dos iniciantes a sommeliers e comerciantes de vinho). Ofereceu 523 tipos diferentes de vinho, com preços entre US$1,65 até US$150. O resultado? Só 12% das pessoas preferiram os vinhos mais caros! Eram os que tinham treinamento anterior com vinho.

Essa notícia mostra que um vinho de US$10, quando servido por US$90 pra mesma pessoa, é considerado “bem mais gostoso”!

Já esse estudo do Journal of Wine Economics conclui que o prazer proporcionado por um vinho vem não só das qualidades dele, como sabor e aromas, mas também do marketing e do preço.

É o preço do desconhecimento (desculpe, não resisti).

A influência do marketing

Esse estudo, feito em 2004, usando fMRI (ressonância magnética funcional), fez tanto provas comparativas às cegas entre Coca e Pepsi quanto degustações com os rótulos à mostra. Sugere que o marketing definitivamente influencia a escolha, apesar da preferência já definida na prova às cegas.

Ou seja: o camarada prova refrigerantes sem saber qual é qual. Diz que prefere um deles (a maioria preferiu Pepsi). Quando prova outra vez, olhando os rótulos, escolhe Coca!

O estudo indica ainda que a correlação entre qualidade percebida e marca é feita numa região específica do cérebro, o Córtex Préfrontal Ventro Medial (VMPC – na sigla em inglês).

essa outra pesquisa, de 2007, foi além. Usou um grupo com pessoas sadias e um grupo com lesões justamente no VMPC.

Pessoas com lesão nessa área preferiram a Pepsi na degustação às cegas. E mesmo quando expostas à marca, continuaram preferindo a Pepsi. Já as pessoas sadias que optaram pela Pepsi na degustação às cegas, tenderam à Coca quando influenciadas pelo rótulo.

A influência de especialistas

Se um rótulo influencia a escolha, imagine o que não faz uma nota de um especialista famoso como Robert Parker!

As notas do Parker geralmente são lançadas na primavera de cada ano, antes da determinação do preço dos vinhos (que é feita num evento para especialistas chamado “en primeur”).

Em 2003, as notas foram publicadas com atraso, no outono. Esse estudo aproveitou essa exceção, comparou com os outros anos e identificou que a nota do Parker influencia num aumento médio de 2,80 euros por garrafa dos vinhos de Bordeaux!

Ora, mas em que lugar não é assim? Quem não procura notas em guias pra saber se o vinho tem ou não qualidade? Mas não precisa ser assim.

A observação das condições climáticas é um fator mais preciso na determinação da qualidade dos vinhos no longo prazo do que as notas de especialistas.

Analisando informações de uma estação meteorológica, pesquisadores confrontaram dados como temperatura e chuvas de 1970 a 1997 com as notas e avaliações feita por especialistas, pra saber qual era mais eficiente na determinação dos melhores (ou não) Barolos e Barbarescos (dois grandes vinhos italianos do Piemonte). Ganhou o clima. Sem falar que é o mais isento.

Até no Brasil os especialistas dão suas escorregadas. Numa degustação às cegas, a sommelière Alexandra Corvo pôs à prova um grupo feito só de conhecedores. O resultado pode ser visto nesse vídeo curto e surpreendente, agora usado pelo fabricante do vinho em questão, que é muito conhecido no Brasil:

Isso quer dizer que tanto faz? Vinho é tudo igual? Claro que não!

Existem vinhos mais gostosos e de melhor qualidade que outros. Assim como um caldo de carne feito à moda antiga tem muito mais nutrientes e é mais saboroso que os tabletes industriais cheios de química. Mas uma boa parte dessa química está lá pra que o mínimo de pessoas perceba a diferença. Com o vinho é a mesma coisa.

É o que veremos na parte 2!

4 Comentários

    1. ZNP
      ·

      É isso aí, Ephran! Tem muito vinho bom na Itália! E falando em italiano, já conferiu a CZP, a copa de procrastinação? Tem muito material de italiano no Memrise!

      Boa sorte!

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