Flashcards e o Sistema Leitner

Já vimos antes que a informação passa da memória de curto prazo para a de longo prazo quando é testada frequentemente, em intervalos espaçados.

O fortalecimento dessa memória é mais forte quando a informação é recuperada, relembrada, testada (revisão ativa – active recall), ao invés de ser codificada outra vez – simplesmente relida ou revista passivamente. As sinapses se fortalecem no nível celular através da degradação de proteínas e formação de outras novas.

Portanto, uma das maneiras mais eficientes de fortalecer as sinapses e bater a curva do esquecimento é testar as informações periodicamente. E uma maneira prática e barata de fazer isso é com flashcards.

Flashcards

Flashcards são simplesmente cartões de papel como os cartões de visita, com a pergunta de um lado e a resposta de outro. Flashcards com vocabulário têm a palavra estrangeira num lado e a tradução em português no outro. E também pode ter uma frase com exemplo.

É digno de menção que pesquisas recentes apontam que escrever à mão provoca uma retenção maior do que digitar. Então, não  se preocupe em comprar um aplicativo caro com um algoritmo de repetição espaçada avançado como o Anki (a versão pra computadores é gratuita), mas repare que a fundamentação dele faz referência aos princípios que vimos: repetição espaçada, curva de esquecimento e revisão ativa.

Vale mencionar a boa ideia do Memrise, que é uma rede social de flashcards! Com isso, você tem acesso a conjuntos de flashcards já prontos, pra aprender de espanhol a klingon (sério!). Já é uma alternativa – sem falar que, por enquanto, é gratuito.

Outra boa razão para continuar analógico é que, nos anos 70, o jornalista alemão Sebastian Leitner desenvolveu um sistema muito simples de repetição espaçada para flashcards.

O sistema Leitner

No sistema Leitner, os flashcards ficam em caixas. Quando é respondido corretamente, o cartão passa para a caixa seguinte. Os cartões da caixa seguinte são revistos em intervalos maiores do que os da primeira caixa, e assim sucessivamente. Os cartões respondidos de forma errada voltam para a caixa anterior.

Sistema Leitner Flashcards

O único problema desse sistema é que não descrevia os prazos das revisões. E esse problema já foi resolvido: 10 a 30% do tempo entre a última revisão e a próxima verificação. Uma sugestão prática é de 4 caixas: revisão diária, semanal, mensal e semestral.

Implementar um sistema de caixas para flashcards feitos à mão não é nada caro nem complicado. Se você estuda um idioma, 4 caixas sem divisões é suficiente. Se estuda muitas matérias (para um vestibular ou concurso, por exemplo), as mesmas 4 caixas com divisões (das matérias) é uma boa solução.

Não  adianta perguntar sobre “flashcards” na papelaria. Peça “fichas pautadas” – as menores que encontrar. Mesmo assim, ainda é possível cortá-las ao meio.

Carregar um maço de flashcards no seu transporte público não apenas é uma maneira produtiva de passar o tempo, como também evita que você associe o que estuda ao local onde estuda. E isso é útil porque vai fazer as provas em ambientes diferentes.

Você já usa ou já usou esse sistema? Em que desafio de aprendizado poderia aplicar esses métodos?

23 Comentários

  1. Arthur Messias
    ·

    Olá,

    Parabéns pelo blog, está sensacional!

    Agora vamos a minha dúvida, eu tava lendo sobre o sistema de Leitner (introduzido por este artigo do seu blog) e li algo diferente do seu, mas pode ser apenas uma questão de adaptação pessoal mesmo.

    – Você diz que cada uma resposta errada, você volta o flashcard para a caixa anterior, já o artigo do link abaixo mostra que ele deve voltar para a primeira caixa.

    http://blogmemrix.blogspot.com.br/2013/10/flashcard-sistema-leitner.html

    No mais, é um método bastante interessante de aprendizado!

    Abraço.

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  2. ·

    Muito interessante o tema. Já conhecia a prática dos flashcards, mas seu aprofundamento no assunto trazendo estudos, referências e assuntos complementares me fez realmente dar importância a isso. Vou começar a usar.

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    1. ZNP
      ·

      Olá Sylvio! Flashcards é uma das maneiras mais efetivas de codificar informações. Não é perfeita, mas as deficiências podem ser contornadas de muitas maneiras. Uma boa introdução é participar da Copa de Procrastinação!

      Obrigado pelo comentário!

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  3. ·

    Ah, tive uma dúvida. Não entendi bem sobre como definir o tempo ideal. “10 a 30% do tempo entre a última revisão e a próxima verificação”. Mas quanto tempo depois definimos a 1ª verificação?

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    1. ZNP
      ·

      O intervalo é progressivo. Pra fins práticos, um cartão que você revisou com sucesso hoje, deve ser revisto em uma semana. Depois, na revisão mensal. Depois, na semestral. Repare que o intervalo foi crescendo. E existe um balanço entre a periodização perfeita e a periodização FEITA, ou seja, a mais conveniente, a que você consegue colocar em prática. Eu tenho uma caixa Leitner (uma caixinha de papelão) com flashcards físicos, que uso nos períodos citados, por comodidade. E também uso aplicativos, como o Memrise, Anki, Quizlet, etc.

      Se a revisão deu erro, o cartão pode voltar pro período anterior ou pro período diário.

      É simples! 😉

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  4. godzilla
    ·

    Ahh, então essas são as caixas Leitner kkkkkkk . Eu não tenho flashcards então, eu tenho só fichas de estudo mesmo. Tenho que fazer algo do gênero para regimento interno. As minhas fichas têm que ter alguma coisa de “especial”, tipo desenhos, aí me lembro rapidamente. Quando é só escrito de maneira “boba”, não costumo me lembrar, a não ser que tenha alguma mancha de café, algo diferente. Mas agora me lembro de ter estudado com flashcards quando fazia japonês. Irei fazer =) . Muito obrigada! Nos “descansos” dos meus estudos vou lendo seu blog 🙂

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    1. ZNP
      ·

      Flashcards são fantásticos! A “caixa Leitner” parece uma coisa sofisticada e cara, mas é só uma caixa de sapatos com cartões! hahaha! 😀 Também existem sistemas com algoritmos complicados pra te fazer lembrar na hora certa, como o Anki (outra palavra japonesa, olhaí!). E é de graça!

      A grande vantagem dos cartões é a flexibilidade e a velocidade de confecção. Se estou lendo um texto ou assistindo um seriado, a palavra nova vira um cartão imediatamente. Junte o contexto do livro, lição ou seriado com a repetição da revisão dos flashcards, e pimba! Upload completo! 🙂

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  5. Rafael
    ·

    Boa noite Zinplez, tudo bem? Estava meio sumido hahaha

    Zinplez, estou com uma dúvida, que horas é melhor confeccionar os flashcards?
    Durante a própria leitura do texto, após a leitura do texto, ou elaborar um resumo após a leitura, para se ter uma noção geral do assunto, e a partir dele elaborar as perguntas?
    Abração!

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    1. ZNP
      ·

      Grande Rafa! Sumiu mesmo, hein?! Eu gosto de fazer depois da leitura. Posso até anotar os pontos num caderno, ou rascunho, mas prefiro primeiro ler e entender, e só depois fazer os cartões.

      Legal te ver por aqui outra vez! Como estão os seus estudos?

      Abração!

      Responder
      1. Rafael
        ·

        Legal Z, eu também, de todos os modos que testei, acabei adotando esse também, leio fazendo anotações e depois tento visualizar essas anotações em forma de desenho ou esquemas, para realmente ver se eu entendi, e elaboro as perguntas em cima deles.

        O engraçado é que antes de conhecer o seu site, eu tinha um pouco de preconceito com os flashcards, pois comecei a usá-los para aprender inglês, ai eu escrevia a frase em inglês de um lado, e no outro a tradução. Mas nas revisões dos flashcards ficava meio automático, parecia um robô, não pensava pois tinha decorado a frase, então não surtia muito efeito. Mas o engraçado é que com os estudos não acontece isso, realmente tenho que buscar a informação, faço associações, tento aplicar aqueles conceitos a outras situações. Por quê será que acontece isso? Será que é porquê houve um entendimento profundo do conceito antes da elaboração, uma visualização e as vezes até uma aplicação prática?

        Comecei também a fazer o curso da Barbara Oakley no Coursera ( se não me engano foi você que indicou, não lembro se aqui ou no fórum do HM) e é muito bom, acabei também comprando o livro dela (fiquei sabendo que tinha em português), O legal que o entendimento do curso e do livro está se dando bem mais fácil, pois vários assuntos já ter lido aqui no seu site.

        Fico meio grande o comentário rs, mas e você, como anda os estudos e os exercícios?

        Abração Z!

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        1. ZNP
          ·

          Grande Rafael!

          É isso aí! Repetição espaçada é muito bom, seja com cartões físicos ou digitais.

          O curso da Bárbara Oakley é sensacional! Nem sabia que tinha o livro em PT-BR! (E se sabia, nem registrei). O podcast Freakonomics está com uns episódios sensacionais sobre produtividade! Só com gente bacana! São uns 4 episódios imperdíveis!

          Estou aperfeiçoando um método de aquisição de vocabulário que mistura prática deliberada e ambiente (uso da linguagem) de uma maneira simples. Quando estiver pronto, posto aqui. No momento, estou aprendendo C# e japonês. No momento, estou na Chapada dos Veadeiros fazendo pesquisa de campo para um projeto pessoal que vou revelar em breve. É trabalho que não acaba!

          Abração, Rafa!

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          1. Rafael
            ·

            Que bacana Z, estarei esperando o postagem do método. Deve ser uma correria, mas deve ser bem gratificante aliar projetos com os estudos.

            Z tenho mais uma dúvida, no livro na Barbara Oakley ela fala bastante dos chunks, mas também diz que ter uma imagem global é importante, para saber o contexto do assunto estudado. Você utiliza essa abordagem nos seus estudos também? Talvez depois de estudar todo o conteúdo de uma matéria, e fazer os flashcards, seria útil fazer também um mapeamento, ou algo do tipo, da matéria para saber onde cada parte se encaixa?

            Obrigadão Z e boa sorte com os projetos.
            Abração!

          2. ZNP
            ·

            Opa Rafael!

            Essa mistura sou eu mesmo que invento. Gosto de decupar um problema em partes menores e achar pequenas soluções pra cada uma delas.

            Chunk é uma técnica que parece complicada ou abstrata demais, mas na verdade, isso é muito usado em matemática, por exemplo, onde você vai construindo seu progresso sobre partes de conhecimento já dominadas.

            Sobre os flashcards, aí depende bastante da matéria. Em História, ou qualquer coisa que tenha uma linha do tempo, acho bom resumos, ou quem sabe um palácio de memória. Pra vocabulário, o melhor é achar um uso da palavra e fazer o cartão a partir daí. Sem um contexto, só a repetição espaçada não segura.

            Vamos juntos!

  6. Rafael
    ·

    EI zinplez, como vai?
    Mas no caso de resumo você também utiliza a repetição espaçada? e também faz por relembrança ativa?

    Mas a técnica dos chunks, é só usada em ciências e matemática por serem matérias que possuem mais conceitos, ou pode ser usada para qualquer matéria, mas ao invés de conceitos você usa para as idéias principais?

    E cada flashcard seria um chunk, ou um chunk pode estar distribuídos em vários flashcards?

    Abração Z, e obrigado por sempre estar esclarecendo as minhas dúvidas.

    Responder
    1. ZNP
      ·

      Olá Rafael!

      Desculpe a demora! Estou em viagem pra trabalho de campo! No caso de resumos, depende muito do que. Repetição espaçada é imbatível com informação factual. Pra sequências, acho o palácio de memória fora-de-série. É muito difícil no começo, e com pouca prática fica viciante.

      Chunks são só uma maneira de criar ganchos mentais pra várias informações ao mesmo tempo. Um pequeno índice, que te faz lembrar de outras informações. Em matemática, a quantidade de camadas de conceitos diferentes num problema é um chunk. Mas você pode até lembrar de músicas usando chunks. Do Hino à Bandeira, por exemplo, só lembro de “Salve-Em-Contemplando-Sobre” – que são as palavras que iniciam as estrofes que não são o refrão. Daí puxo o resto. É um chunk: “Salve-Em-Contemplando-Sobre”. O resto todo está ligado a ele.

      E disponha! É sempre um prazer!

      Abração!

      Os toques de corneta no exército são todos lembrados dessa forma. Pra todos eles existem “letras” – que só servem pra fazer todo mundo decorar mais fácil.

      Você pode colocar um chunk num flashcard, se for um conceito complexo. Ou fazer associações violentas, bem humoradas ou até sexuais. Desculpe mencionar isso, mas é como fazem os campeões dos concursos de memória. Esses camaradas criam associações que fazem cada informação ser inesquecível. E pra isso, quanto mais extraordinária, melhor.

      Responder
      1. Rafael
        ·

        Obrigadão mesmo Z, nem sei como agradecer por sempre tá respondendo as minhas dúvidas.

        Tentarei usar mais a técnica do palácio da memória em alguns casos. Acredito também que cada tipo de assunto tem uma maneira de ser abordado.

        Grande abraço Zinplez, e novamente, boa sorte com seus projetos.

        Responder
        1. ZNP
          ·

          Opa Rafa! É sempre um prazer receber um comentário! 😀

          Se usar palácio de memória no mesmo tempo que repetição espaçada, vai ver como é fácil lembrar dos detalhes. É complicado no começo e depois fica até divertido!

          Abração!

          Responder
  7. Natacha Cordeiro
    ·

    Olá ZNP!
    Este foi o primeiro post do teu blog que eu li, gostei muito!
    Obrigada por compartilhar tuas experiências.
    Grande abraço.

    Responder

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