Sorte ou Azar?

Sou um grande fã de textos e filmes motivacionais. Volta e meia esbarramos em coisas que fazem sentido e realmente nos dão um impulso extra.

Quem não se lembra do falso discurso de formatura da turma de 1999 – Wear Sunscreen  (“Use filtro solar” – na verdade, um artigo publicado em 97)? A versão de Baz Luhrmann, narrada pelo australiano Lee Perry, é um clássico da história dos virais de internet.

Outros textos são carregadas de lugar comum, frequentemente kibando pedaços aqui e ali, no melhor estilo maktub.

Hoje vamos ver de perto umas das fábulas da motivação de microondas. Textos tão requentados que acabam aparecendo em comerciais de banco, tatuagens, ou no Fantástico, narrados pelo Pedro Bial.

 

A História do Fazendeiro TAOISTA

近塞上之人有善術者,馬無故亡而入胡,人皆弔之。其父曰:「此何遽不為福乎!」

Entre o povo que vivia próximo à fronteira, havia um homem que levava uma vida de retidão moral. Sem nenhuma razão, seu cavalo escapou, indo para território bárbaro. Todos ficaram com pena dele, mas o velho disse: “o que te faz pensar que isso não é uma coisa boa?”

居數月,其馬將胡駿馬而歸,人皆賀之。其父曰:「此何遽不能為禍乎!」

Muitos meses depois, o cavalo voltou, acompanhado por um soberbo garanhão bárbaro. Todos o congratularam. Mas o velho disse: “o que te faz pensar que isso não pode ser uma coisa ruim?”

家富良馬,其子好騎,墮而折其髀,人皆弔之。其父曰:「此何遽不為福乎!」

A família ficou mais rica com o cavalo novo, e seu filho gostava de cavalgá-lo. Mas ele caiu e quebrou o quadril. Todos ficaram com pena dele, mas o velho disse: “o que te faz pensar que não é uma coisa boa?”

居一年,胡人大入塞,丁壯者引弦而戰,近塞之人,死者十九,此獨以跛之故,父子相保。故福之為禍,禍之為福,化不可極,深不可測也。

Um ano depois, uma grande invasão bárbara atravessou a fronteira. Todos os homens capazes tiveram que usar seus arcos e foram para a batalha. Do povo que vivia próximo à fronteira, nove em cada dez morreram. Mas como não tinham como lutar, tanto o velho quanto o filho foram poupados.

 

A origem

A história acima é um texto bacana, certo? Remonta ao século II aC, do livro Huainanzi, uma compilação de textos clássicos. Uma outra versão aparece até em referências mais antigas, do Liezi, texto taoista da dinastia Han, do século IV aC.

De lá pra cá, foi citada muitas vezes. Existem similaridades em muitos textos e ocasiões do mundo moderno, desde um conto de Tolstoi publicado em 1872 (“Três perguntas” – o número 23 deste texto) até livros contemporâneos sobre cultura de negócios na China.

E é aí que a coisa descarrilha.

 

A Mancada

Nesse ponto, alguém teve a ideia de aproveitar essa história pra dizer que os caracteres chineses de “crise” e “oportunidade” são os mesmos.

Crise é “危机”(wei1ji1), e oportunidade é “机会”(ji1hui4). Legal, então não é um mesmo caractere para as duas palavras. Mas um deles aparece em ambas: “机”.

Curiosamente, esse caractere também aparece em: 登机, 手机, 打印机 – as místicas palavras para “embarcar num avião”, “celular” e “impressora”.

Ou seja, embora esse caractere também tenha a conotação de “oportunidade”, como aparece também em “机遇” (golpe de sorte, oportunidade favorável), a comparação é semelhante a dizer que tanto “crise” quanto “oportunidade” terminam com a letra “e”.

Seja como for, é um texto que pode ter influenciado muita gente boa.

Em Hamlet, Shakespeare disse: “there is nothing either good or bad, but thinking makes it so”, que foi da onde veio “não existe bem, nem mal, só a percepção”.

Um pouco desse estoicismo pode ser bem útil. Nos dias de hoje, podemos ver as notícias como um fazendeiro taoista, e dizer: “pode ser sorte, pode ser azar”.

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