Os Dois Modos do Cérebro

Sabe quando você vai dormir pensando num problema e acorda no meio da noite com a solução?

Salvador Dali costumava tirar cochilos segurando chaves. E quando dormia e as chaves caiam, ele acordava normalmente com a visão da solução. Parece estranho (ok, é esquisito), mas muita gente boa usava truques parecidos. Thomas Edison fazia a mesma coisa, mas segurando rolimãs. Einstein e Aristóteles também faziam isso.

O segredo não está exatamente no cochilo. Esse artigo não é sobre “power nap”. O segredo está em saber usar os dois modos do cérebro: o concentrado e o difuso.

No modo concentrado, você lê, tenta entender, se esforça pra compreender a matéria. Problemas matemáticos, por exemplo. Esse modo usa só partes bem específicas do cérebro. É como todo mundo estuda, né? O modo difuso, ao contrário, trabalha quando você não está concentrado, quando não está ativamente pensando no assunto.

Pra que funcione, primeiro você tem que se esforçar pra entender o problema. Se não tiver funcionado, procurar outras fontes de explicação pode ajudar. O negócio é insistir na resolução, não bater na primeira dificuldade e dizer “bem, já fiz o bolo, agora o forno vai fazer a parte dele”.

Depois de insistir por um tempo, vale recorrer a tarefas que sejam opostas ao modo concentrado: jardinagem, meditação, oração, dança, cozinha, faxina, cochilos curtos, exercícios físicos – tudo isso é excelente pra ativar o modo difuso.

A ideia é que o problema seja trabalhado por áreas maiores do cérebro, que usa mais informações do que só as específicas sobre aquela matéria em questão. Ele pode relacionar um problema de geometria com uma aula de artesanato, por exemplo.

No meio acadêmico, o modo concentrado é conhecido como Task-Positive Network. O modo difuso é conhecido como Default Mode Network.

Algumas pessoas simplesmente conseguem trocar de um modo para outro muito rapidamente. Você acha coincidência o Magnus Carlsen ter feito o Kasparov literalmente suar a camisa ao se levantar e virar as costas do tabuleiro numa partida quando tinha 13 anos de idade?

Eu não sou bicampeão mundial de xadrez, mas semana passada precisei escrever a solução para um problema que outras quatro pessoas não tinham resolvido em duas semanas – para a manhã seguinte!

Estudei tudo o que podia, assisti vídeos, li principalmente as críticas, e ao invés de estudar até tarde, fui dormir cedo, deixando o trabalho propriamente dito para a manhã seguinte. Acordei logo ao amanhecer, tomei café e praticamente digitei a solução!

Se tivessem me contado, eu não teria acreditado. Ao invés de sacrificar o sono, deliberadamente confiei no modo difuso (não só no sono – alguns lampejos de ideias também apareceram no banho).

Já aconteceu com vocês?

4 Comentários

  1. Marcos
    ·

    Não sei se está relacionado diretamente ao assunto, mas recomendo a leitura do livro “Rápido e Devagar” do Daniel Khaneman, onde ele expõe a existência de 2 formas de pensar: a rápida, intuitiva e automática (por ex. dirigir carro por lugares familiares), e a forma mais lenta e deliberada (ex. ficar fazendo contas complexas de cabeça).

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    1. ZNP
      ·

      Legal, Marcos! Kahneman é um dos grandes personagens dessas pesquisas, como pode ser visto neste artigo. Essas teorias são todas muito recentes, e se desenvolvem muito rapidamente!

      Outro artigo interessante com referências a Kahneman é este artigo, sobre tomada de decisão.

      Bom comentário! Valeu! 😉

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  2. Lela
    ·

    Obrigada pela explicação do que acontece comigo logo após acordar ou logo após o banho.

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    1. ZNP
      ·

      É possível usar esse método deliberadamente. Pense num problema, estude as opções e esqueça. No dia seguinte, a solução aparece com mais facilidade!

      E obrigado pelo comentário!

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