Carpe Diem!

Seguir a dieta ou enfiar o pé na jaca? Poupar um pouquinho a mais pra aposentadoria ou boletar em compras o que sobrou do salário? Estudar o que é preciso ou assistir mais um episódio dum seriado?

“Ora, eu não sei o dia de amanhã, então não vou deixar pra depois o que posso curtir hoje! Carpe diem!”

Maravilha! Parece que o Robin Williams chancelou os maiores desejos de lambança auto indulgente ao citar este poema em Sociedade dos Poetas Mortos. Acontece que o verso não acaba em “carpe diem”.

Esta expressão apareceu na obra Odes, do poeta romano Horácio (65 a 8 aC). Dirigindo-se à Leuconoé, aconselha:

Tu ne quaesieris, scire nefas, quem mihi, quem tibi
finem di dederint, Leuconoe, nec Babylonios
temptaris numeros. ut melius, quidquid erit, pati.
seu pluris hiemes seu tribuit Iuppiter ultimam,
quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare
Tyrrhenum. Sapias, vina liques et spatio brevi
spem longam reseces. dum loquimur, fugerit invida
aetas: carpe diem, quam minimum credula postero.

“Não se pergunte, pois é um sacrilégio, que fim os deuses darão a mim ou a você, Leuconoé. Nem recorra à numerologia babilônia. Muito melhor é passar pelo que quer que seja. Se Jupiter te reservou muitos invernos, ou se este, que agora mesmo debilita o mar Tirreno nas rochas opostas, for o último, seja sábia, coe o vinho, e traga suas longas esperanças para um período breve. Enquanto falamos, o tempo invejoso já terá fugido: aproveite o dia, confiando o mínimo possível no seguinte.”

Por muito tempo, as pessoas simplesmente ignoraram deliberadamente a influência epicurista na obra de Horácio. E os epicuristas não tratavam o prazer como os hedonistas.

A ode então, não é um convite para dar a volta pelado no quarteirão, fazer selfies pendurado em torres ou apostar todas as suas economias em corridas de cavalos.

O que Horácio quis dizer de uma forma bacana é: “Sorria. Amanhã será pior”.

Viva com tranquilidade e paz de espírito. Curta o dia de hoje e se prepare para o seguinte.

Quando estiver em dúvida entre seguir sua rotina produtiva ou mergulhar na auto recompensa, carpe diem! Mas lembre-se: quam minimum credula postero!

2 Comentários

  1. razmth
    ·

    Gostei de saber, realmente não sabia que era uma frase usada cortada e sem o contexto original.

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    1. ZNP
      ·

      Opa raz! É que o prazer do epicurismo não era apenas um bom prato e uma soneca. Separavam os desejos entre naturais ou não, necessários ou não. Segundo eles, a serenidade de ânimo – a ataraxia – era a origem da felicidade. Bem diferente do prazer hedonista, né?

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