A Mentira de Hércules

Todo garoto sempre sonhou em ter super poderes. Tarzan, Batman e Super-homem são algumas das opções mais populares do século XX. E entre todos os heróis, o que motiva a molecada há mais tempo é, sem dúvida nenhuma, Hércules.

O cidadão era bruto. Não estou falando aqui só da força. Ele era mulherengo, bêbado e desordeiro. No cinema, ganhou nobreza, defendendo os fracos e oprimidos.

Seja como for, o filho de Zeus com a mortal Alcmena não ficou famoso pelo senso de justiça. Ele era forte. Muito forte.

HÉRCULES FARNÉSIO

É isso o que conta a estátua conhecida como Hércules Farnésio. Esse gigante de mármore de 3,17m foi esculpido em 216 a.C. por um camarada chamado Glykon, sobre o qual nada mais se sabe.

Hércules Farnésio

Essa estátua havia sido dedicada aos Banhos de Caracalla de Roma, um complexo esportivo construído em Roma entre 211 e 217 a.C., que além de banhos com piscinas de temperaturas diferentes, ainda tinha uma biblioteca, uma área para prática de lutas, e até lojas. Tudo com entrada gratuita para o público.

Imagine o quanto essa estátua de Hércules não motivava a turma a praticar esportes!

Acontece que a estátua não era original! A original veio do século IV a.C., e supostamente é obra de Lísipo. E dessa obra de Lísipo, ainda existem muitas cópias diferentes – nenhuma retratando um Hércules tão forte.

Ou seja, Glykon muito provavelmente fez uma interpretação própria em que idealizou um Hércules que, mesmo cansado, ainda exibe sua genética olímpica.

A estátua foi descoberta em 1546 e em seguida foi para a coleção do Palácio Farnésio, em Roma (por isso o nome), e em 1787 foi para o Museu Arqueológico Nacional, em Nápoles, onde está até hoje.

NOS TEMPOS MODERNOS

Hércules continuou a impressionar e a inspirar gerações de atletas e esportistas. Tanto é que Eugen Sandow, um alemão nascido no século XIX e conhecido como o pai do fisiculturismo, interpretou a lendária pose do Hércules Farnésio.

Eugen Sandow

Vamos admitir que o senhor Sandow, o vencedor das competições de força da época, era realmente muito forte. E numa época muito anterior aos anabolizantes.

Pelo contrário, Thomas Hicks, o vencedor da maratona dos jogos olímpicos de 1904, usava estricnina com brandy como suplemento!

Mesmo assim, Sandow ainda tinha um corpo bem mais modesto que a estátua de Hércules. Basta ver a proporção da cabeça.

O recurso de fazer a cabeça menor para dar ares nobres é muito comum. Tarzan e Flash Gordon foram precursores desse recurso nos quadrinhos, mas não nas artes.

Ao longo do século XX, Hércules continuou a impressionar a molecada e a motivar os fisiculturistas. Muitos deles representaram Hércules no cinema. Steve Reeves, campeão de fisiculturismo em 1947, 48 e 1950, foi o ator mais bem pago da Europa interpretando o herói clássico.

Aliás, as próprias competições de fisiculturismo sofreram sua cota de influência pelo Hércules Farnésio.

Joe Weider, que levantou um império sobre o fisiculturismo, perseguia com força o ideal olímpico, e se não o atingiu, pelo menos fez uma fortuna enorme em academias, equipamentos, livros, revistas e competições (fundou o IFBB e criou o Mr Olympia). E ver a estátua foi uma experiência que teria mudado sua vida – em suas próprias palavras.

Mas repare que alguma coisa aconteceu entre os anos 50 e 60 no fisiculturismo. Vejam a diferença entre Steve Reeves e o cubano Sergio Oliva.

Reeves e Oliva
Steve Reeves e Sérgio Oliva

Na década seguinte, Arnold Schwarzenegger. Hércules havia sido ultrapassado.

Curiosamente, Arnold também representou Hércules num filme de 1969. E também seu rival, Lou Ferrigno, que ficou famoso por ser o Hulk da série dos anos 70. O ideal olímpico havia se transformado num monstro.

E esse monstro continuou crescendo. Mesmo hoje em dia ainda existem mais filmes do Hércules do que do Batman. O último é de 2014, com Dwayne “The Rock” Johnson.

Se a estátua de Hércules nos ensina alguma coisa, é que foi criada para ser a representação de uma criatura mitológica, filho de um deus. E que esse semi deus foi o sócio enganado de uma indústria que vende um padrão de estética inatingível – pelos meios naturais – justamente para faturar mais.

Já não acreditava em suplementos, apesar de ter tomado aminoácidos (muito caros) na adolescência. Desisti de vez de todos eles. E das mentiras dos heróis da minha juventude, boas o suficiente até para reeleger governadores.

Continuo praticando atividade física e tentando melhorar a dieta. Mas sem ficar frustrado por não ser um herói mitológico.

Então, meu caro Hércules, é aqui que nos separamos. Curioso que sua influência seja tão grande até nos dias de hoje. E isso explica um pouco do que aconteceu com nossa sociedade, que valoriza tanto as aparências.

Não te admiro mais. Acho estranho seguir um modelo construído sobre um cara que matou os próprios filhos.

Zeus me livre.

5 Comentários

  1. razmth
    ·

    Post filosófico esse, hahaha. Eu particularmente nunca acreditei muito em suplementos, só usava creatina e whey. O resto sempre achei meio balela. Aminoácido numa quantidade irrisória, suplemento pra dar foco, entre tantos outros.

    De qualquer forma, mesmo creatina e whey sendo mais confiáveis, dá pra questionar um pouco. Primeiro que a gente não sabe o teor do whey, se é o que tá na embalagem. Segundo que pode ser que nosso corpo nem absorva tanta proteína de uma vez só, o que poderia fazer um frango se mais vantajoso, se levar em conta que a digestão de algo mastigável é mais lenta. Isso ainda sem colocar na ponta do lápis o custo do g de proteína do whey e do frango.

    Sem dúvida a galera marombeira fica muito refém de suplemento e do ideal de corpo perfeito, que é perfeito pra competir, mas pro dia a dia é completamente inatingível: anabolizantes, +horas de sono, alimentação e suplementação caras e que tomam boa parte do dia. Se você não vive disso, é impossível.

    E quando falam que fulano, sem muita grana, é bastante forte e definido sem nada, jogam a culpa na genética. Curioso, né? A indústria deve amar a genética dizendo a varias pessoas que elas precisam de algo pra crescer.

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    1. ZNP
      ·

      Exatamente, raz! Nos venderam um estilo de vida baseado em referências no mínimo duvidosas. É por conta dessas referências tortas que vemos pessoas cuja profissão é andar com roupas numa passarela ganhando muito mais do que professores.

      É um mundo estranho, esse em que vivemos!

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      1. razmth
        ·

        É porque nós somos pagos pela raridade do que fazemos e não pela importância do que fazemos.

        É a mesma coisa com a água e o diamante. A primeira tem em abundância, basta desenvolver tecnologia pra tratar a água do mar. O diamante, além de raro, requer um estudo de como será cortado: uma peça maior, uma média e duas menores, uma média e uma menor, tudo visando a rentabilidade do conjunto. Considera-se ainda a impureza que pode ficar bem no meio de uma das peças; a lapidação, onde um erro pode estragar a peça; o formato da lapidação, mais ou menos trabalhada.

        Até que é um pensamento razoável. Mas quando você vê os milhões na conta de um jogador de futebol e compara com o pouco que ganha um professor, parece que a proporção de raridade vs. importância tá bem desequilibrada.

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        1. ZNP
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          Seu exemplo não poderia ter sido melhor, raz!

          O diamante, ao contrário do que se imagina, não é tão raro! Nos lares americanos, por exemplo, só perde para as TVs! Sua oferta foi manipulada artificialmente, primeiro pela empresa sul africana De Beers, e depois por uma série estrategicamente planejada de ações de marketing que associaram amor a diamante. Entre tantas medidas, o amor também passou a ser medido – em quilates. (Ao fundo, Marilyn canta “Diamonds are a girl best friend”.)

          Além do mais, andar com roupas não é um talento tão raro assim, né? 😀 Mas as pessoas que pagam pra que alguém faça isso provavelmente são as mesmas que pagam caro por diamantes (ou qualquer item “exclusivo” – ou seja, que exclui). E perpetuam o 13º trabalho de Hércules.

          Pra saber mais sobre os diamantes, ouça esse episódio recente do Freakonomics!

          E mais uma vez, muito obrigado pelo comentário!

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          1. razmth
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            Imagino que não seja pouco, de fato, a partir de um kimberlito deve dar pra fazer milhares, a depender do tamanho. Mas digamos que sejam bem mais finitos que a água. 😀

            Obrigado pela dica, certamente irei ouvir. Abração!

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