Construindo um
Palácio de Memória

Já falamos antes sobre a origem da técnica conhecida como Palácio de Memória (ou Método de Loci). Hoje vamos aprender a construir um.

Aumentar a memória é uma questão de técnica e prática. E no mundo em que vivemos, ter uma memória muito acima da média não é nada pra ser manchete de jornal.

É razoável supor que, para uma pessoa que não corre 1 km diariamente, correr 10 km seja demasiado. Mas com algum treinamento, correr 10 km não chega a ser impressionante. Essa mesma pessoa pode não conseguir fazer uma única barra fixa, mas em alguns meses de treinamento, pode fazer 10 barras sem que isso seja uma surpresa.

Então, porque haveríamos de nos surpreender se fôssemos capazes de multiplicar nossa memória por 10? Não foi isso que aconteceu no estudo de Chase e Ericsson (Skilled Memory Theory – 1982)?

O palácio de memória é uma técnica de memorização que voltou com tudo quando as competições de memória ganharam alguma popularidade – e isso não tem muito tempo.

Nele, você usa um lugar que conhece, e vai guardando informações no caminho.  Pode ser um cômodo ou um apartamento. Pode ser o caminho de casa até o metrô ou o trabalho. Pode ser o escritório, ou algum restaurante. Competidores de memória vivem colecionando palácios de memória!

Escolhido o lugar, cada objeto da sua lista precisa de associações fortes. Não basta colocá-lo lá. Vale imaginar o objeto com outras formas e materiais, vivo, cantando, fora de escala ou num trocadilho engraçado, bizarro, ou até mesmo violento ou obsceno. Os campeões de memória acham as associações obscenas particularmente memoráveis. Eu acho limitadas, então recorro com maior frequência ao humor.

Usar sinestesia é uma boa ideia. Cores, cheiros, barulhos, texturas, vozes com timbres diferentes – trocadilhos infames também são sensacionais.

Vá passando pelo seu palácio de memória e criando associações. É tão fácil que lembrar da ordem inversa não é nenhuma dificuldade extra.

As competições de memória infelizmente não são tão úteis quanto parecem à primeira vista: não buscam reter informações úteis. Muitas delas baseiam-se na memorização da ordem de muitas coisas (números, cartas de baralho, palavras aleatórias, etc). E além disso, a competição é coisa de um dia.

Portanto, para fixar melhor a lista no seu palácio de memória, nada como repetição espaçada!

Na primeira vez que tentei, usei uma lista de compras com 15 itens. Fiz brincando com minha sobrinha. Depois, no dia seguinte. Passadas quatro semanas, revisamos. Cada um havia perdido um item. Os dois perderam os itens com associações mais fracas! Depois disso, revisamos em seis meses.

Eu usei a sala de estar e fui guardando os itens da lista nos vasos de plantas, mesas, computador, monitor, etc. Fiz um sofá de farinha; transformei o monitor num picolé gigante; de um furo dum cactus brotava iogurte, num outro espetava o dedo e gritava “Ahhhh meixa!”, e assim por diante.

Ela montou uma história onde cada item se formava e se desfazia de acordo com o que era – e ficava tudo na cozinha. O polvilho nevava sobre a frigideira; um ponto vermelho aparecia no meio dela, e ia crescendo até virar uma fatia de peito de peru, e assim continuava.

Acontece que 15 itens é muito pouco depois de alguma prática. Gente com muita prática faz palácios muito elaborados para lembrar todos os reis da Inglaterra ou os presidentes dos EUA. É o que Ed Cooke, o mnemonista por trás do aplicativo Memrise, descreve em seu livro “Remember, Remember“.

Infelizmente, o livro acima é apenas a descrição de 4 palácios de memória. Só isso. Se quiserem conhecer os meandros de uma competição de memória (e muito mais), é melhor ler o livro “Moonwalking with Einstein” – de Joshua Foer.

Joshua é um jornalista que foi cobrir uma competição de memória, achou tudo muito curioso e começou a praticar (sob a tutela do excêntrico e divertido Ed Cooke). No ano seguinte, foi o campeão americano!

Assistam ao seu fascinante TED aqui (legendas em português):

8 Comentários

  1. Arthur
    ·

    Legal ZNP, já tinha ouvido falar de palácio da memória recentemente na série “Sherlock”..

    Só que a princípio essa técnica não me pareceu tão útil para decorar muitas coisas.. Por exemplo, tenho que estudar para um concurso e preciso saber leis, teorias de RH, regras de raciocínio lógico e etc.. Acho que criar um palácio da memória para cada um dos itens demandaria muito tempo.. E coisas abstratas são mais difíceis de serem guardadas em forma de algo concreto..

    Ou estou errado e essa técnica é boa mesmo para coisas abstratas?

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    1. ZNP
      ·

      Pode ser usada pra coisas abstratas, mas no que ajuda muito é em ordem de listas. Pode ser até uma lista de conceitos abstratos, que o palácio vai bem. Mas nada que vai pro palácio vai como chegou, sem um “tratamento”. Esse tratamento constrói vínculos entre a informação e como acessá-la.

      Posso fazer um palácio de memória com palavras de uma língua bem estrangeira (como japonês, por exemplo) para me ajudar a lembrar dos significados. E quanto mais criativo, diferente, engraçado for cada conexão, melhor será a retenção.

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    1. ZNP
      ·

      Obrigado pelo comentário, raz! Se tiver interesse no assunto, o livro (Moonwalking with Einstein) é muito bom!

      Responder

  2. ·

    Sempre fiz mnemônicos bem simples. Nem imaginava essa ideia maluca de abusar da criatividade para gravar coisas. Muito bom o texto mais uma vez!

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    1. ZNP
      ·

      Walter, isso usa o nosso GPS natural pra ajudar a reter informações! Sei que parece esquisito, mas com pouca prática você vai ver como é util! 😉

      Responder
  3. Marcio
    ·

    Olá, estou procurando aonde esta técnica pode me auxiliara decorar partituras ou cifras musicais… Sou iniciante e estou confuso nessa parte.

    Poderia me ajudar?

    Muito obrigado e principalmente por compartilhar ok…

    Abs

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    1. ZNP
      ·

      Olá Marcio,

      O que você quer é decorar partituras de músicas ou fundamentos de teoria musical?

      Palácios de memória são excelentes pra ajudar a decorar sequências. Você coloca cada etapa da sequencia numa parte do caminho. Digamos que seja da entrada da sua casa até o seu quarto. Em cada parte, faz uma associação bem esdrúxula (pra ajudar a fixar ainda mais). E vai seguindo até acabarem as informações. Revise usando um método de repetição espaçada (tem artigos sobre repetição espaçada aqui) e pronto! No começo é estranho, e em poucos dias esquecer é impossível!

      É possível usar um aplicativo ou site como o Memrise. Revisamos diariamente cursos diferentes por ele e brincamos de competição na CZP – a Copa Zinplez de Procrastinação, que nada mais é uma brincadeira entre amigos que estudam matérias diferentes e revisam flashcards.

      Abração!

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