Uma Magnum Italiana
na China

Este texto tem 4 anos. Foi publicado em 2011, diretamente da China (onde morei por alguns anos) para o blog WineLeaks Brasil, do BK72, um querido amigo que, este sim, conhece muito de vinhos.

Quando digo que conhece de vinhos, é porque, além de beber muita coisa boa e diferente, viaja muitas vezes especificamente para conhecer as produções locais (coisa que eu fiz pouco), e além de tudo ainda tem memória para lembrar de tudo, o que eu também não tenho.

Vou aos poucos recuperar os textos e o próprio Wineleaks Brasil, porque é uma injustiça que esteja meio parado.

UMA MAGNUM ITALIANA NA CHINA

Recebi em minha humilde residência, o Sr Gitzelmann, vindo da Suíça para passar aqui o Festival da Primavera, o ano novo chinês. Esse jovem e amável senhor já seria normalmente bem-vindo, mas esse ano, ele trouxe novamente mais um motivo para continuar sendo bem recebido: uma garrafa do Canneto Riserva 2005. E uma garrafa magnum, daquelas com ponta oca e carga dupla. Pesada, escura, do jeito que o Polaco gosta!

Aí segue uma curiosidade pra ampliar os sabores dessa história: a vinícola é de propriedade de sua família! E logo no rótulo, lê-se “Vino nobile di Montepulciano”! Pra um camarada forçado a beber vinhos “compre 1, leve 2” dos mercados chineses, qualquer lembrança da Toscana é uma mesa posta pro jantar, encontrada por um náufrago. E nem adianta falar de custo/benefício, porque sei que não existem distribuidores dessa beleza no Brasil – muito infelizmente.

Fui ao site e conferi as informações: 90% Prugnolo Gentile (Sangiovese grosso), e mais 10% de Canaiolo nero, mammolo, cabernet sauvignon e merlot – um corte feito com uvas totalmente cultivadas ali mesmo, na bonita Montepulciano (as fotos deste artigo são do Sr Gitzelmann).

Montepulciano_01

Além dos 30 meses em barris de carvalho francês (e mais 6 na garrafa), o Vino di Montepulciano tem uma longa história de elogios que começou no ano 790.

Em 1549, São Lancerio, mestre da adega do Papa Paulo III, se referiu ao vino nobile como “Vino perfettissimo da Signori”. Eu não entendo patavinas de italiano, mas imagino que elogios vindos de um santo sejam mais impressionantes que um 100 na caneta Parker! E lendo sobre a história do São Lancério, dá pra ver que ele entendia! Bebia muito, escrevia, e começou a usar termos como “redondo”, macio”, “maduro”, “forte”, que são hoje largamente usados pelos sommeliers mundo afora. É considerado um dos grandes especialistas da história da enologia.

Como sempre, abrimos a garrafa e deixamos o danado respirar. A cor é densa e o aroma ainda mais. Aquele aroma de ação e aventura que os bons vinhos tem. Intenso, persistente e complexo. Não vou falar de “couro” ou “madeira”. O aroma desse vinho me deu a sensação de abrir o capô de um V12 e ouvir o motor roncando. Possante e forte, mas com aquela ideia de que o melhor ainda está por vir. E estava.

A ocasião não podia ser melhor. E não há ocasião que uma garrafa duplo impacto dessas não melhore. Os 14% sob o capô garantem o que estou falando. E passam despercebidos, no meio de tanto sabor. Os taninos não são brincadeira. Pura corrida de bigas. E é sem nenhuma dúvida um vinho de guarda, que pode ficar anos na adega esperando a hora de sair. Acho mesmo que uma beleza dessas pode ficar muitos anos na adega, ensinando paciência ao dono. Naturalmente, acompanha bem carnes molhudas, e outros pratos sem frescura. E na pequena e pura Montepulciano, elas vão até as vinhas!

Coelho em Montepulciano

No fim da noite, o Sr Gitzelmann mostrou seus dotes fazendo uma bebida pirotécnica com o brandy Changyu (que ele garante ser o melhor do mundo) e café. Espero que ele tenha motivos para voltar aqui ano que vem. Eu tenho motivos de sobra para recebê-lo!

6 Comentários


  1. ·

    Acredita que comprei uma garrafa do Canneto, dessa safra aí, em Las Vegas e deixei com nosso amigo Zu, aí em sua cidade.

    Mas acho que não fui muito claro quando disse que era pra nós 3 bebermos juntos. Ele não entendeu…

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    1. ZNP
      ·

      Acredito! Mas nem pro camarada escrever as impressões? Revi o site do Canneto recentemente, e a 2005 já era!

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  2. Erich94
    ·

    Um dia eu quero entender de vinhos desse jeito :D. No momento só compro alguns chilenos e argentinos “populares” pra apreciar nos fins de semana kkk.

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    1. ZNP
      ·

      Erich, a base é essa mesmo: beber muito dever de casa! Não tem outro jeito! 😀

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      1. Erich94
        ·

        Se é assim, então preciso beber bastante deveres de casa pra chegar nesse nível de exp! Hahaha

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