Picnic:
20 palavras em japonês

Já li alguns livros sobre palácio de memória, e os mais conhecidos não são em português. Mesmo que fossem, seriam cheios de notas do tradutor, porque os trocadilhos em inglês não fazem nenhum sentido em português, incluindo aí as referências a nomes de pessoas. Por exemplo, ao decorar nomes dos reis da Inglaterra, toda vez que aparece uma galinha (hen) gigante, o rei se chama Henry. Se você curte trocadilhos infames, o palácio de memória vai ser muito fácil.

Para mostrar como é possível lembrar de várias informações – especialmente numa sequência – hoje vamos aprender rapidamente 20 palavras em japonês. Poderiam ser artigos de leis, obras de um autor, presidentes ou prefeitos, etc.

Estou adaptando a técnica não só ao português brasileiro, mas também às nossas referências. Em pouco tempo você vai perceber.

UM PICNIC JAPONÊS

Decidido a aprender japonês, você resolve fazer um passeio. Sai da cidade e chega ao campo. No alto de um pequeno monte, você vê uma linda e isolada árvore. É aqui. (ki: árvore – 1). Que lugar ótimo para deitar e ler um livro!

Você tira sua mochila e coloca no chão. Imediatamente, ela infla e vira uma barraquinha, uma cabana. (mochila: kaban – 2) Dentro dela, seu player de mp3 tem alguns áudio livros. Infelizmente, ele fala com a voz fanhosa do Boça (de Hermes e Renato)! Ora, mas que bom! Aliás, que “hon” (hon: livro – 3) – repete a voz fanhosa.

É, talvez seja melhor simplesmente deitar e curtir a sombra da árvore. Mas assim que você deita na grama, suas costas começam a kusá (kusa: grama – 4). As coisas não vão bem. Só falta começar a chover. Você olha pro céu e pensa: “sorá que vai chover”? (sora: céu – 5). E procura por aquelas nuvens escuras de chuva. Qual é mesmo o nome delas? “Kumo – los nimbus”? É isso aí! (kumo: nuvem – 6).

Ainda olhando pro céu, um grupo de hare krishnas aparece cantando de repente, dando um susto danado! “Hare, Hare, Hare…” Seus mantos laranjas e pandeiros brilham muito sob o sol. (Hare: ensolarado – 7). Mas só aí você nota que o primeiro Hare Krishna usa uma túnica azul, bem diferente das outras. Aliás, bem diferente! Ele é o Sílvio Santos! E vem cantando “m-aOi! m-aOi!” (aoi: azul – 8). Em suas mãos, uma figura do sol feita de madeira, cujos raios se espalham como se fosse o enorme timão de um navio, e que ele mesmo talhou (tayou: sol – 9).

Bem, com um céu azul e sem nuvens, definitivamente não vai chover! Você respira aliviado, mas ouve, logo atrás de si, uma voz possante do Pavarotti cantando “Riiiiidi pagliaaaaaccio”! E quando vira, repara que o minúsculo cantor está num galho, e parece o grilo falante, todo vestido de gala. É um semi tenor (semi: cigarra – 10). E à medida em que canta e solta o ar, vai murchando, murchando e perdendo a gravata, o fraque, e murchinho, murchinho, vira um simples inseto (mushi: inseto -11).

“Já não era sem tempo!” – diz outra voz, de dentro dum buraco no tronco da árvore. É Rocket, o guaxinim louco dos Guardiões da Galáxia. Ele está na árvore. “Tá nu ki” – (tanuki: guaxinim – 12).  E some no buraco da árvore.

Finalmente, um pouco de paz. E olhando pros lados, você vê ao longe uma aldeia. E ela parece tão tranquila que parece um bom lugar pra morar (mura: aldeia – 13). E bem ao lado dessa aldeia, uma montanha onde casais de alpinistas escalam e se beijam. Que estranho! Escalar e amar? (yama: montanha – 14). Por que razão eles fariam isso? Não só isso, mas estão completamente molhados! Naquelas montanhas está chovendo muito! Essa chuva é uma ordem para o amor! AME! (ame: chuva – 15).

E chove tanto nas montanhas, que entre elas e a aldeia corre um rio. Oras, que surpresa! Kauã Raymond, o galã das novelas, está nesse rio! (kawa: rio – 16). Mas o bonitão não consegue atrair a atenção de nenhuma moça. Todas estão em volta de um peixe. Um peixão grandão, em pé, com uma risada engraçada, cheio de garotas o abraçando e beijando. Está roubando as namoradas do Kauã! Mas que sacana! (sakana: peixe – 17).

Às margens do rio, um pequeno sapo de bigode e óculos usa um chapéu de abas largas. Parece com Fernando Pessoa, mas em meio à tanta simplicidade e natureza, só pode ser seu pseudônimo Alberto Caeiro (kaeru: sapo -18).

Bem ao lado do intelectual sapo Caeiro, aparece um jacaré. Mas não é um jacaré normal! Ele tem a cabeça da Fernanda Torres! E o jacaré pergunta pelo Rui! Então esse jacaré só pode ser a Vani, dos Normais! (wani: jacaré – 19. Lê-se “uani”). Ela pergunta pelo Rui, com aquele jeito neurótico, e soluça. Quando soluça, vira do avesso! O curioso é que, do avesso, o jacaré é um pequeno jardim florido (niwa: jardim -20. Lê-se “niuá”). Wani/niwa!

E o jardim soluça, e volta a ser o jacaré! – “Cadê o Rui?”

CONCLUSÃO

Eu poderia continuar com o texto acima por mais palavras, mas o artigo ficaria muito longo. Fazer essas associações mentais, ao contrário de ler um texto, é rápido e pode ser divertido. As regras são:

  1. Quanto mais criativa e diferente, mais memorável a associação é;
  2. Usar sinestesia (sons, texturas, cheiros, estímulos variados) ajuda a lembrar;
  3. Não há limites nas histórias. As associações podem ser de todo tipo. Normalmente, para palavras isoladas e sem necessidade de uma ordem, a associação basta. Se a ordem for necessária, um palácio de memória é a técnica certa;
  4. Os campeões de memória colecionam palácios: lugares e trajetos onde você já foi podem ser armários de informação;
  5. Para melhor assimilação do conteúdo, revise o palácio usando repetição espaçada. Garanto que o conteúdo vai ficar!

Para revisar, você hoje aprendeu:

  1. ki – árvore;
  2. kaban – mochila;
  3. hon – livro;
  4. kusa – grama;
  5. sora – céu;
  6. kumo – nuvem;
  7. hare – ensolarado;
  8. aoi – azul;
  9. tayou – sol;
  10. semi – cigarra;
  11. mushi – inseto;
  12. tanuki – guaxinim;
  13. mura – aldeia;
  14. yama – montanha;
  15. ame – chuva;
  16. kawa – rio;
  17. sakana – peixe;
  18. kaeru – sapo;
  19. wani – jacaré;
  20. niwa – jardim.

Só de ler as palavras já remete à associação, repassando o roteiro. E te desafio a ouvir o Sílvio Santos dizendo “m-aoi” sem lembrar que “aoi” é azul!

 

4 Comentários

  1. razmth
    ·

    Hahaha, muito bom! Não sei se dá pra considerar, mas vejo nessa técnica uma forma de chunking, mais extenso, claro.

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    1. ZNP
      ·

      Opa raz! Os mnemonistas usam pra tudo! A gente não precisa usar pra tudo, mas quando tem ordem no meio, facilita muito!

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  2. ·

    Belo post!

    Quando li o artigo sobre palácio de memória, senti falta justamente do modo prático. O post resolveu num instante!

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    1. ZNP
      ·

      No começo parece um método meio doidão… porque é mesmo! Mas os mnemonistas (os atletas de memória) usam nas competições pra gravar muita informação. Então deve funcionar!

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