Um Great Wall na
Grande Muralha

Este texto tem 4 anos. Foi publicado em 2011, diretamente da China (onde morei por alguns anos) para o blog WineLeaks Brasil, do BK72, um querido amigo que, este sim, conhece muito de vinhos.

Além de beber muita coisa boa e diferente, ele costuma viajar para conhecer as produções locais (coisa que eu fiz pouco), e ainda tem memória para lembrar de tudo, o que eu também não tenho.

Vou aos poucos recuperar uns textos do Wineleaks Brasil, porque é uma injustiça que esteja meio parado.

UM GREAT WALL NA GRANDE MURALHA

Quando foi embora da China, o Sr Gitzelmann não deixou apenas saudades de sua agradável companhia. Deixou também uma garrafa do Great Wall Cabernet Sauvignon 2006.

Os leitores devem lembrar que até agora, as tentativas com vinhos chineses na faixa de preço dos bons dia-a-dia que vemos no Brasil não deram certo. Se compararmos o café com o chá, a diferença entre o sabor de um vinho chinês e de um chileno do quotidiano ficam na mesma.

Great Wall 2006 Caixa

Mas o Great Wall Cabernet Sauvignon 2006 nem parece um vinho comum: vem acondicionado numa impressionante caixa de madeira, realmente bonita, e ao abri-lo, a garrafa parece vir com as marcas do tempo e sujeira direto da vinícola.

Conhecendo os produtos chineses, sei que tudo, absolutamente tudo vem em mais embalagens do que o necessário, muito mais embalagens do que estamos acostumados. Biscoitos vem embalados num saco, um plástico injetado e a embalagem de fora. O queijo prato vem embrulhado num papel, fechado num plástico transparente e envolto na embalagem de fora, que tem as informações do produto. Até tangerinas vem em sacos individuais! Então, essa caixa de madeira, embora impressionante, pra mim parecia uma desculpa pra deixar o preço mais alto. As marcas na garrafa, acreditem se quiser, eram de um acabamento jateado leve que dá a impressão de poeira, sujeira ou idade. Na minha opinião, essa pirotecnia é feita pra impressionar quem não conhece vinhos.

Great Wall 2006 Garrafa Jateada

Essa semana, procurando vinhos num supermercado, encontrei uma jovem senhora que procurava um vinho sob as mais bizarras recomendações da funcionária do supermercado. Recomendei um bom chileno, já que os franceses que estavam na prateleira levavam um ágio pela “appellation d’origine”. Ela disse preferir um vinho caro e/ou famoso, já que se tratava de um presente. Então, vinho francês, caro, ou os dois, é garantia de vinho bom pros chineses.

Há um bom tempo eu esperava uma ocasião de fazer um bom post com esse Great Wall 2006. A oportunidade veio ontem, um dia muito bonito, de tempo aberto, quando fui até o trecho Mutianyu da Grande Muralha. Fica a 70km a nordeste de Pequim e é um dos trechos mais bem conservados de toda muralha. Sua construção foi iniciada em meados do século VI. Já fui em outras estações do ano e agora, as cerejeiras brancas começam a cobrir a paisagem depois do inverno seco e rigoroso.

Fui direto ao ponto mais alto do trecho permitido aos visitantes. Lá chegando, abri a caixa, conferi o acabamento jateado da garrafa e imediatamente abri a garrafa. No nariz, não veio lá tão pujante, mas é normal alguma timidez. Nem tempo pra descansar direito ele teve, saiu e foi direto pro trabalho. Na boca, a primeira impressão foi positiva. Pra quem esperava um chá de uvas… E, servido sem resfriar, nos agradáveis 22 graus (aproximados) que fazia lá em cima, a primeira impressão foi que sobrava álcool. E com 13 graus de álcool, não tem porque sobrar álcool. Essa impressão mais tarde diminuiu.

Great Wall 2006 No CopoApesar de ser um vinho bem melhor que todos os outros chineses que já provei até agora, não há nele um equilíbrio de sabores ou aromas que justifiquem o preço, de 300 yuans – algo como 75 reais atualmente (nota de maio de 2015: hoje a garrafa custaria R$ 147!). O Great Wall Cabernet Sauvignon 2006 ainda não se compara a um bom argentino, chileno ou australiano da metade do preço. Os efeitos especiais também acabaram tirando a confiança de que, no que eu bebia, havia um vinho honesto. Não sei se já encerro as buscas por um vinho chinês realmente bom. De custo/benefício, já desisti.

Como bons vinhos e boas oportunidades são assuntos entrelaçados, devo dizer que beber um Great Wall apreciando 15 séculos de história numa bela paisagem não foi nada mal. Isso, pelo menos, posso recomendar ao leitor sem medo de errar.

2 Comentários

    1. ZNP
      ·

      Taí, BK! Quando sou eu que falo, ninguém acredita! Mas como foi o Jorge Lucki, do mais importante evento em Bordeaux… E olha que eu não provei nenhum dos 17 entre os 120 melhores, hein?!

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