O Conde de Monte Google

Nossos ancestrais primatas passavam muito tempo coletando e mastigando. Suas vidas eram destinadas à sobrevivência.

Com o controle do fogo, podiam consumir mais calorias em menos tempo, porque o fogo também acelera a digestão. Com isso, nossos ancestrais passaram a ter mais tempo para outras atividades. E com esse tempo livre, o desenvolvimento do intelecto explodiu, o que explica a razão do cérebro do homo sapiens ter o dobro do peso do cérebro do homo erectus.

Bem depois do fogo, civilizações atingiram feitos realmente incríveis. Nossa sociedade ainda se baseia em valores que surgiram na civilização grega. Ética e democracia, por exemplo.

Os juízes gregos, chamados dikasts, antes de qualquer causa, juravam seguir as leis onde houvesse leis, e à justiça onde não houvesse, inferindo ao ser humano um senso natural de justiça. Milênios depois, o cientista cognitivo Paul Bloom publicou um livro sobre estudos em que bebês de apenas 3 meses diferenciam bem e mal. E isso foi em novembro de 2014.

Ano passado, como já citamos, o Nobel de Medicina foi para pesquisadores que descobriram o GPS do cérebro. Um recurso que, além da orientação espacial, era usado há 2500 anos para desenvolver a memória – e depois perdeu-se no tempo.

Do oriente, veio a meditação, cujas origens são difíceis de remontar com precisão. E seus resultados aproximaram membros da comunidade científica não só dessa prática, como do budismo, onde é usada como uma prática fundamental.

Para entender como eles conseguiam tanto, eu poderia continuar enumerando avanços incríveis das civilizações antigas, em tempos em que os recursos eram quase nulos e a própria população era muitas vezes menor do que a de hoje, sem falar que estavam muito mais suscetíveis a doenças e epidemias e a catástrofes naturais. Mas ao invés disso, vamos pra uma prisão do século XIX.

 

O CONDE DE MONTE GOOGLE

Em 1815, um jovem e promissor marinheiro mercante volta a Marselha para casar-se, mas é acusado de fazer parte de uma conspiração bonapartista e jogado numa cela solitária do Château d’If, uma prisão.

Anos depois, um erro de cálculo nas escavações para a fuga o leva a conhecer o abade Faria. A partir daí, ele não apenas entende a razão de sua prisão, mas aprende outros idiomas, cultura e ciências. Por fim, o abade revela o lugar onde fica um tesouro, que seria a base do retorno do “Conde de Monte Cristo”.

Sem a conspiração, o jovem Edmond jamais teria conhecido o Château d’If, e teria tido uma vida feliz ao lado de sua querida Mercédès. Mas não teria uma história extraordinária. E uma parte fantástica desta história é como alguém sem acesso a absolutamente nada aprende tanto. Isto não foi só possível graças ao contato com o sábio Faria, que existiam em profusão na sociedade. Outros dois fatores ajudaram:

1 – Uma forte motivação. Neste caso, a motivação do jovem capitão era vingar-se dos seus inimigos e recuperar o que era seu;

2 – Disciplina. E aí, a prisão foi fundamental, já que, apesar de ter que ocultar as provas de seus encontros secretos nas supostas solitárias do Château d’If, aprender era a única atividade do protagonista.

O Conde de Monte Cristo é, claro, uma obra de ficção. Mas nem em seus sonhos mais loucos Alexandre Dumas poderia ter previsto a internet, que dá acesso a tanta informação (inclusive essa aqui!). Fato é que o abade Faria cumpre seu papel de fonte do conhecimento, que é o que transforma o protagonista. É como se, toda noite, o prisioneiro tivesse acesso a um computador com internet.

Mais uma vez, o segredo é menos. Temos muito mais recursos que Edmond Dantès tinha, incluindo liberdade e tempo. E muito mais recursos que qualquer personagem do passado, incluindo saber de suas existências e feitos. E essa oferta absurda de recursos, ao invés de nos transformar, nos limita. Viraram distrações.

Diminuir as distrações, ter uma motivação forte, usar disciplina para fazer bom uso do conhecimento, isso é que vai nos transformar.

O melhor de tudo é que nem precisamos ir pra prisão, nem precisamos nos vingar de ninguém. Temos tudo o que precisamos, do fogo ao abade Faria. Só fica na prisão quem quer.

 

Para saber mais:

Se não quiser assistir tudo (deveria!), veja a partir de 11min20s (A Suzana Houzel é uma brilhante neurocientista brasileira com um lindo sotaque):

O Julgamento de Sócrates é um livro que dá um panorama da sociedade grega na época do filósofo. Não é uma leitura das mais fáceis, mas é muito boa! Existe versão em português e até edição de bolso!

Esse episódio de Inquiring Minds é excelente! E Paul Bloom publicou seu livro Just Babies ano passado:

2 Comentários


  1. ·

    Em tempos de dúvidas sobre o que fazer com o tempo livre, esse blog tá me ajudando demais, znp. Muito mesmo, são coisas que eu já pensava, mas nunca pus em prática e agora o blog vem me indicando o caminho.

    Abraço!

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