Em Busca da Felicidade

Quando li sobre a Lei de Weber Fechner (na verdade, duas leis), imediatamente pensei em como percebemos (ou não) a felicidade.

O corpo humano não é muito bom em avaliar estímulos absolutos, mas é bom para captar variação nos estímulos. Isso torna o ser humano altamente adaptável.

A lei de Weber Fechner diz que a percepção é uma razão entre o estímulo e o ambiente.  Para ser percebido num ambiente ruidoso, é necessário gritar. Num quarto quieto, um sussurro é suficiente. Existem fórmulas que descrevem esses conceitos matematicamente.

Segurando um peso de 2kg por algum tempo, e depois pegando um peso de 2,1kg, você não notaria a diferença. Só notaria quando a diferença fosse 0,2kg. Se segurasse 5kg, só notaria a diferença de 0,5kg. Ou seja, a diferença de percepção segue a mesma razão.

Isso provavelmente tem relação com a somatossensação. Para perceber um estímulo, os neurônios funcionam de 3 maneiras diferentes: disparando sem parar durante toda a duração do estímulo (não adaptativo), disparando mais frequentemente no início do estímulo e espaçando progressivamente (adaptação lenta), e disparando no início e no fim do estímulo (adaptação rápida).

O curioso é que a lei não se aplica apenas a luz, som e peso. A dificuldade de discriminar dois números (quantidades e distâncias, por exemplo) aumenta quando a diferença entre eles diminui, o que tem implicações em várias áreas. E até o resultado de adrenalina administrada obedece à lei de Weber.

E se essa lei valesse para tudo?

WEBER-FECHNERIZANDO A VIDA

Num exercício hipotético, extrapolamos a lei de Weber Fechner para a percepção de felicidade.

A primeira ideia é diminuir o estímulo do ambiente, o ruído que faz necessário gritar para ser ouvido, e doses maiores para ter o mesmo efeito. A vida não precisa ser uma produção de Hollywood para gerar um efeito positivo. Não estou falando só de dinheiro, que é um fator completamente alheio à mente. Se o nível básico de conforto baixar, pequenos estímulos produzem um efeito maior. Uma vida mais simples pode ser mais estimulante.

Vai desde ações muito simples, como não adoçar o café, não colocar molho na salada e trocar a sobremesa de doces por frutas. Em pouco tempo as sensações passam a ser completamente percebidas. O doce do café passa a ser discriminado do amargor, o sabor da salada passa a ser multiplicado. Naturalmente, a redução do ambiente intensifica a percepção do estímulo.

Se a gente projetar uma semana Weber Fechner, daremos atenção às pequenas coisas, nos concentrando em realizar apenas uma atividade de cada vez – muitas – com atenção plena.

Ao invés de grandes indulgências, espalharemos pela rotina uma sucessão de pequenas vitórias, desde cedo até a hora de dormir. Na semana seguinte, repetimos os mesmos estímulos aumentando a intensidade, não a duração.

Pequenos prazeres e vitórias podem ser “weber-fechnerizados” como hábitos. Fazer exercícios mais difíceis e complexos, aumentando gradativamente sua intensidade.

Aprender um idioma também pode ser uma atividade estimulante, se a gente colocar ao nosso alcance, desde o começo, conteúdo que possa ser descoberto na língua estudada. Nada de estudar por estudar. Desde o começo, testar métodos novos para ter acesso a informação nova pode ser uma novidade forte o suficiente para manter a motivação lá em cima.

O próprio ato de meditar não é a “weber-fechnerização” do pensamento? Reduzimos todo o ruído, todo o ambiente do pensamento, os estímulos externos, de forma a que o simples ato de ser possa ser mais intensamente percebido. E neste ato simples, nossa percepção e concentração aumenta. E aumenta não só enquanto praticamos a meditação, mas continua pelo resto do dia!

Na semana seguinte, procuramos aumentar a intensidade de tudo, depois de um descanso no fim de semana, claro.

Essa lei não é nova (é de 1843!), e esse texto é só um exercício de imaginação. Mas quem diria, uma vida mais simples pode ser mais intensa?

E se você levasse esse exercício para a sua vida, o que “weber-fechnerizaria” na sua vida?

4 Comentários

  1. razmth
    ·

    Ótima reflexão, Z. Gostei da contextualização também, um viés bem diferente de quando se vê o pessoal defender esse ponto de vista da vida simples.

    Mas, no caso dos pesos, percebemos variações maiores à medida que aumentamos o peso, ou seja, estamos perdendo a sensibilidade e, em contrapartida, se estamos levantando um peso maior, alcançamos o tão desejado aumento de força. Será que dá pra dizer que em alguns casos nosso objetivo é a perda da sensibilidade?

    De modo mais simples, quando estamos acostumados a levantar 60 kg no supino, 10 parecem não fazer mais efeito. Há uma perda de sensibilidade, não se sente mais o mesmo esforço, à medida que alcança-se o aumento da força.

    Sim, estou problematizando tudo. 😛

    Felicidades e uma ótima semana, Z! Abração!

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    1. ZNP
      ·

      Opa raz! Ao levantar o peso, o objetivo no exemplo não é ganhar força, mas tão somente saber qual é a “mínima diferença notável” entre um peso e outro! Ou seja, não haveria ganho ou perda na força ou resistência muscular. Só um teste de percepção. O mesmo pode ser observado com intensidade de áudio, de luz, etc.

      Além do mais, se 60kg forem sua 1RM, dificilmente vai levantar mais de 60kg sem perceber! De outra forma, os levantadores de peso usariam a lei de Weber Fechner e um parceiro pra montar os pesos pra melhorar suas marcas! 😀

      Bem, o artigo de hoje foi só uma viagem! 😀 E olha só, me ocorreu durante aquele curso de neurobiologia que citei numa Zevista! Recomendo!

      Abração!

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      1. razmth
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        É que eu extrapolei em relação ao exemplo e viajei um pouco com relação ao levantamento de pesos dos treinos. 😀

        Esse curso é o que te ajudou a economizar tempo de trabalho da sua equipe? Tá na lista de espera aqui.

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        1. ZNP
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          Grande raz! Estas extrapolações são legais! Este texto é uma, e bem doida! 😉

          O curso que me ajudou na época foi um de programação para internet, em que o instrutor dava dicas sobre vídeo, áudio, etc. E uma dessas dicas, veja só que coincidência, era exatamente o que minha equipe precisava pra fazer, em poucas horas, o trabalho de dias! Daí a gente vê o quanto todo tipo de informação pode ser útil!

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