Todo idioma é uma ponte

Já vi gente estudar idiomas por todo tipo de razão: viagens, trabalho, estudos, família, namorada (o), e por aí vai. E já vi quase o mesmo tanto desistir depois de um tempo. Quando a motivação acaba, não tem método de aprendizagem que dê certo.

Se um dia sair do emprego ou mudar de área, quem começou a estudar pelo trabalho terá parado de estudar o idioma antes.

Quem tem um namoro estrangeiro e termina a relação perde mais do que só a cara metade. Se não morar no exterior, o idioma da (o) falecida (o) vai pro fundo da curva de esquecimento.

Quem viaja, ou domina o idioma do país que visita, ou muito provavelmente vai ouvir uma resposta em inglês, que é a língua franca (ou o espanhol no caso da América Latina, claro). Isto é tão mais verdade quanto mais turístico for o lugar.

Um caso extremo foi uma pessoa que conheci que fez 2 (duas) aulas de mandarim, comprou um dicionário eletrônico, um livro de frases de emergência, saiu do aeroporto em Pequim durante as Olimpíadas, entrou num táxi e leu, dum papelzinho, o endereço para onde queria ir. Isso é que é confiança!

Obviamente, o motorista não tinha a menor ideia do que ela estava falando. Ela ficou irritada, porque achava estar pronunciando tudo perfeitamente. Mas nem o endereço em inglês ajudou. Era tão alienígena para o motorista quanto o mandarim para a turista, apesar das duas aulas!

Então, a melhor motivação para aprender um idioma é o conteúdo que ele esconde. O volume produzido em qualquer idioma sempre ultrapassa o traduzido.

Imagine o tanto de material bacana em inglês. Seriados, músicas, filmes, jogos, sites. É muita coisa! E esse conteúdo muitas vezes é exclusivo! Exclusivo de quem conhece o idioma.

Uma das lembranças mais queridas que tenho é de passar o verão numa praia que não tinha eletricidade, e de noite ouvir, com meus irmãos, histórias como Os Três Mosqueteiros e O Conde de Monte Cristo, que meu pai contava com a facilidade de quem conta uma piada. Anos depois, ler os textos originais em francês era uma ponte com aqueles dias de felicidade da infância, cuja maior parte se foi junto com o meu pai.

Não me interprete mal: não existe motivação certa ou errada. Se algum estímulo é forte o suficiente pra te fazer aprender um idioma novo, ótimo!

O ponto é que todo idioma é uma ponte, não um destino. Ninguém mora numa ponte, que é uma passagem. Você usa a ponte pra ir até onde quer, faz o que precisa e volta.

Por mais fascinante que possa parecer, o aprendizado do idioma não é uma finalidade em si. De nada adianta dominar uma língua e não usar. Alcançar objetivos gradativamente complexos pode ser uma tarefa que gera a própria motivação.

Se seu objetivo é aprender os segredos da comida italiana, a cada nova receita lida ou vídeo assistido, você esquece que existe gramática e sintaxe, da mesma forma como quem vai para um compromisso não se preocupa com os arrebites e colunas da ponte que atravessa.

É claro, enquanto você constrói essa ponte, ela precisa de vocabulário, gramática, pronúncia, etc. Mas o destino norteia a construção. E o destino não é a ponte em si. Quem mora debaixo da ponte é porque não tem para onde ir.

Muita gente faz do estudo uma finalidade em si, e se preocupa sem parar com todos os detalhes, como a perfeição da gramática e os meandros da fonética, menos com o destino, o conteúdo exclusivo.

Este artigo é um lembrete de que, seja lá qual for a sua motivação no aprendizado de idiomas, ler quadrinhos em japonês ou cantar em alemão, assistir novelas mexicanas ou estudar filosofia chinesa, você sempre tem razões para atravessar essa ponte o mais rápido possível.

É claro, com um grau de dificuldade suave o suficiente para não frustrar. Até o mais prolífico filósofo chinês aprendeu a escrever uma letra de cada vez.

Dá até para imaginar Confúcio escrevendo seu primeiro texto (jamais publicado):

爷爷看了葡萄

Ou seja: “vovô viu a uva”. Pode ter começado assim, simplesinha, uma ponte colossal.

2 Comentários

  1. razmth
    ·

    Ótimo texto, Z!

    É o que tenho tentado fazer ultimamente. Entender o que a música fala, procurar pelas palavras e expressões desconhecidas, acompanhar cantando pra me forçar a pronunciar com a mesma fluidez. O mesmo para seriados. A vantagem da música é que ela é curtinha, 3-4 minutos. Mais fácil repetir várias vezes ao dia/semana. Um seriado ou um podcast como o IM já é mais trabalhoso.

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    1. ZNP
      ·

      É isso, raz! Seja qual for seu nível de proficiência, existe um conteúdo exclusivo pronto pra ser descoberto. Basta insistir e procurar um conteúdo que não seja tão difícil que frustre. Em pouco tempo você chega até o IM! 😉

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