As Ilhas de Conversação

Uma corrida de táxi em Pequim nunca era rápida, porque eu morava longe das áreas de estrangeiros e da universidade que frequentava. E como o câmbio era muito favorável, quase tudo era bem mais barato do que no Brasil. Mas as corridas de táxi eram especialmente baratas, porque, já que eu estava pagando, via como uma sessão de conversação.

Quando entrava no táxi, fosse qual fosse meu estado de espírito, começava a conversar. E o motorista, normalmente curioso pelo passageiro estrangeiro, também conversava bastante.

No começo, eu repetia um script. Uma apresentação minha, do Brasil, comparação do Brasil com a China em alguns aspectos do cotidiano. Em algum momento, o script variava. De acordo com o rumo da conversa, o assunto ia para violência, mercado de trabalho, comidas típicas, bebidas, futebol.

Como eu morava fora dos dormitórios da universidade e frequentava uma academia de um condomínio, descobri os termos relacionados bem rapidamente: séries, repetições, supino, panturrilha, e por aí vai.

Sem saber, estava construindo ilhas de conversação. É um processo comum em livros e cursos, mas pouco compreendido por auto didatas.

Você escolhe um ou dois assuntos (as ilhas) em que deseja ganhar proficiência, e aumenta seu vocabulário em torno deles. Com o tempo mais ilhas vão aparecer, e as que existem vão aumentar.

Uma maneira muito fácil é com os livrinhos de frases ou conversação de emergência.

Mas por favor, não façam como a conhecida que pegou um desses livros, aprendeu a falar as frases com grande proficiência, memorizou quase tudo, fazia as perguntas com excelente pronúncia até que… ouvia uma resposta! Como seguia o livrinho e a resposta real quase nunca era igual à do livro, não sabia o que o nativo queria dizer!

Ilhas de conversação é uma excelente maneira de desenvolver fluência muito rápido. Veja bem: fluência, e não domínio! Com a fluência, a conversação não para, ela flui. Não é uma tortura para um dos interlocutores.

Os livrinhos de conversação e seus diálogos são um ponto de partida para as ilhas. O que pode mudar são as perguntas e as respostas. Você pode conduzir a conversa e pensar nas respostas mais prováveis. E em muitas alternativas para as respostas do livro.

No começo, provavelmente vai repetir a mesma apresentação e diálogo muitas vezes. Vai parecer o Dia da Marmota (do filme “Feitiço do Tempo”). Em pouco tempo, será obrigado e pensar nas alternativas e no vocabulário que vai aumentar sua ilha.

Também pode desenvolver um pequeno arsenal de frases curtas para ganhar tempo e pensar numa resposta. Mesmo sem saber como continuar a conversa, essas pequenas expressões (“hmm, como posso explicar isso?” ou “ahh, então aqui é assim?”) compram tempo e fazem o diálogo menos doloroso quando há uma interrupção.

Essa é uma estratégia muito usada pelos hiper poliglotas para aprender a se virar em poucos tempo em qualquer situação.

E você nem precisa de táxis para aumentar suas ilhas. Pode marcar aulas particulares pelo italki, em que paga professores nativos por uma aula particular, ou simplesmente fazer um cadastro no tandem, completar seu perfil com informações interessantes e começar a conversar com um outro estudante sem gastar um único centavo!

Se fizer a lição de casa com os livrinhos de conversação e as alternativas, estará conversando com um nativo num tempo tão curto quanto nunca achou possível! E saberá que as ilhas estão aumentando quando as alternativas não assustarem e o tempo da conversa for gradativamente maior.

6 Comentários

  1. razmth
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    Excelente post, Z! Engraçado, hoje estava vendo uns vídeos de musculação em inglês e estava tendo uma compreensão muito boa, sem ficar tentando reparar quais palavras estavam sendo ditas, contraídas ou suprimidas, como às vezes faço ao ouvir uma música. Apenas fluía. E tive a ideia de começar a acompanhar mais vídeos de um mesmo autor/tema pra entrar um pouco mais naquele vocabulário. Tem tudo a ver com as ilhas de conversação e eu nem me lembrava que hoje era segunda e que tinha post pra ler, hahaha! Boa semana!

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    1. ZNP
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      Grande raz! É isso aí! Uma boa técnica pra desenvolver vocabulário é assistir filmes e seriados como você faz, e anotar as palavras redundantes. Se você fizer isso nos primeiros episódios, no meio de cada temporada já estará com as palavras sobre controle. Prision Break tem um conjunto de palavras recorrentes (não estou discutindo a utilidade!), Breaking Bad tem outro, Sex and the City tem outro ainda.

      E parabéns pela arrancada da semana passada na Copa de Procrastinação! Ficou bem no mensal, hein?!

      Boa semana! 😉

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      1. razmth
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        Vai ser difícil alcançar os primeiros, sobretudo porque devo viajar e ficar sem internet. Os últimos dois dias foram de um pouco de preguiça, mas vou tentar dar um gás enquanto não viajo, hahaha! Não é fácil manter o ritmo alto, mas muito obrigado! 😀

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        1. ZNP
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          Então coloque o app no seu celular e baixe o material! Quando estiver online em qualquer café, atualiza o placar! Tá indo bem! É sem dúvida um forte procrastinador! hehe!

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          1. razmth
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            Caraca! Eu via esse baixar mas não tinha testado! Nem me toquei da possibilidade de usar o aplicativo offline. Agora ninguém me segura, haha!

          2. ZNP
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            O truque da maldade é ficar offline a semana inteira e, no sábado, subir um placar matador! 😀

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